::: big fish :::

contaste-me do mergulho no lago com um brilhozinho nos olhos, a cara enregelada à volta, o frio todo da antártida preso entre as palavras e o peso do teu corpo tenso. quase que te conheço dissimulado, agora, à beira da distância, mas isso nunca me importou. entre os dias a uma rotação abaixo do normal e a vertigem pequenina do teu semi-sorriso, o tempo foi passando sem que sequer me apercebesse distraída das saudades de casa, do tempo claro, da cidade a ferver.

o teu exercício-mergulho, numa demonstração clara de extremos e contradições, falou-me ao ouvido, respirou paisagem fora e acertou-me em ricochete à frente do espelho.

gostas de muito quente ou muito frio dizes, o desconforto como pretexto, e explicas-te na tua experiência militar: o lago gelado és tu. em ti nadam-se 15 metros até ao bloqueio do corpo e morre-se sem ajuda quando se tenta lutar. ultrapassas e desvias-te com um ondular esguio de nadador de competição e garantes que, se se demorar mais de 2 minutos e meio a sair de uma emergência aquática, então, é porque nunca se lá devia ter ido parar para começar. as coisas todas partidas em ti vão deitando ao chão o que se levanta, e as operações são cirúrgicas e anestésicas, uma rotina, nem má nem boa, só aparentemente existente.

intriga-me que tanta tenacidade não se acompanhe com os pulmões frontais e declarados. intriga-me, ou talvez não, a cara-coroa entre a cobardia e o desapego, em ultima instância um certificado de independência, ou de insegurança.

mas o que tu não sabes é que só morre no teu lago quem estiver tão perdido como tu, quem não puder ver reflexo nem souber sobre panorâmicas. os mapas que julgas que lês são indicações simples numa rotunda interior, tracejados pequenos que não vão dar a lado nenhum.

deste lado, para onde gritas a inquietude que não sabes ter, há mais que corvos. há sol e lagos que derretem e gelam e têm segredos. há o frenesim dos 365 dias em que o mundo dá uma volta e um quarto, há os anos bissextos, os níveis do mar e os pés na relva. cidades que pulsam para além das tuas localizações geográficas e pessoas com medo de não terem medo e mãos abertas.

nós vivemos à luz, somos curiosos, ridículos e românticos, não temos limites. respiramos fundo sem partir e sorrimos largo, de olhos franzinos. deste lado, onde não sabes chegar, acreditamos, e o gelo é sempre, como dizes, uma experiência absoluta, como o é o calor e os dias cinzentos.

mostraste-me o primeiro luar deste país e pediste escuro em troca, mas aqui deste lado há magma, e o magma não se apaga só com o medo da manhã.
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    Nancy Sinatra - Two shots of happy, one shot of sad

::: take you on a cruise :::



it's the circles inside


resoluções e viagens que não fizemos, colecções de guias e mapas e imagens mentais da nossa felicidade ao sol, os sítios onde nunca chegámos, tentativas que nos chovem cansaço e distância, o certo em sentido contrário. as mãos na minha boca ou no teu cabelo a disfarçar o desnorte. as mãos no teu cabelo mesmo ao longe, sem tocar, e a minha boca seca, os dentes destruídos. nos meus sonhos brincamos aos liquidificadores, cidades com carrinhos pequeninos onde cabem as nossas malas todas e que param na boca do jarro, portas abertas pra nos atirarmos à trituração - se misturarmos tudo podemos fingir que não estamos irremediavelmente dormentes. as meninas cospem flores como sinaléticas estrangeiras, contam de frente pra trás os números que pesam na lâmina. o zero mais redondo anuncia sem desculpas que não fomos suficientes para guiar os dias aos nossos destinos de desejo e, antes do ruido, vejo os campos de girassóis onde ainda não fui e as tardes a morrer ao teu colo baixinho, sem doer nem fazer barulho. desfeitos de tudo, renascemos. e no ecrã da viagem nova está escrito a quem quiser ler "que o dia te seja limpo".

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    Interpol - Take you on a cruise

::: torrente :::



bulb


- lacinante. a palavra de ordem cuspida como uma crosta que é preciso atirar ao corpo de quem nos interpela. o bichinho do podre a comer sozinho, beiças lambidas nos contornos da ferida.um pús que sabe a fel e morde e queima. um caminho de peçonha - um novelo de lã viva - a ligar-nos ao mundo.



-- no encéfalo os dedos a galope, um disparo inconcretizado na anatomia geral da provocação. acção-reacção-putrefacção, o lugar do corpo fingidor disfarçado, ilusionista, a preparar uma investida maxilo-facial, bifásica. o choro quente do fatídico propósito, uma vida toda deste lado da fronteira.



--- o ambiente um vazio denso como uma região pantanosa. a desordem. entre o peito e os pés de se escapar houve sempre desconexão secreta, um beijo de língua a acertar no orifício nasal, o desajeito. debaixo do que escondemos há qualquer coisa que se esconde: um punhal ou um carro de fuga.

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    Recoil - Shunt

::: apontamentos :::



bulb


# o vestido esguio como um rolo de película. sempre o mesmo vestido representado, o mesmo casulo, braços esticados a romper. aqui, a luz inverte-se e o fumo é frio, em vertigem pendemos num equilíbrio-desequilíbrio cínico, o riso histérico sem esboço, a língua recolhida e o coração a pedir.



## o percurso é sintético. nas mãos a abrir em concha um mapa pequenino de esferas, rotundas em espiral para o fundo. temos o fogo de quem é puxado para dentro, de quem, para fora, grita no ar de lado nenhum. o medo é fluorescente. no vazio o tudo estala.



### era uma valsa iluminada de candelabros, um espaço físico de toque, um emaranhado. será sempre tempo de jogar aos espelhos, de apelar à memória. a fluidez cristalizada nos olhos, o corpo roto, aleijado de articulação e a suspirar. de dentro da toca para fora o desencanto, a nudez de todas as árvores do mundo.




(Edit: trip to england postponed to january. i'd still be grateful for guides and friends to show me secrets*)

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    Do Make Say Think - All of This Is True

::: it's because of our plans, man... our beautiful, ridiculous plans :::

o tiro no escuro e a luz rompe-se, torta, destroçada, a cuspir pó. éramos passos estendidos degrau atrás de degrau, uma escada de dedos e salivas estrilhaçadas no chão, a lei da gravidade pendente, o que ficou sem existir entre o um e o outro - falava sozinha: avisei-te do perigo, o banho a distorcer-me, tu eras longe e nada em mim revertia a imagem pura na retina. fecharam-me os tímpanos no primeiro dos últimos dias, o bisturi aceso a ver-te chegar -.

eram da relva, os pés, e expliquei-te do comum dos dias transformado, dos pequenos animais a rebentar do colo - as perseguições infantis, o trincar da fruta -. expliquei-te a impossibilidade de constância, o inconveniente e o aparato do meu inesperado. era em ti, de mim, os dedos translúcidos através da película como se tivessemos sido sempre - e fomos, contei-te, a comer chocolates, conhecia-te nos ossos um articulado familiar, há muito presente como uma ideia original, uma ideia de sempre, que tivemos mas nunca desabrochou da planta para fora. a nossa ideia comprada no tempo a quem a arrancou da confluência para os bancos de jardim, para as portas do metro. fomos como os desejos sem rosto, o ideal inominável, idolatrado e inconsistente -.

dos minutos divididos em marchas, aquisições e vómitos nunca nos falámos, mas respiravam-se as marés vivas e o bater do pano no paralelismo-universo-duplo - a concentração no expirar, o inspirar naturalmente, como se fosse. como se houvesse maneira -. oiço música dentro da cabeça desde que me lembro, sobretudo se ando na rua e me magoam as outras bolas de sabão; lavo-te a pele no regresso a casa, sem que notes, sem que te dispas ou te chame a atenção. somos dos que vivem secretamente interligados, desconectados, amplificados na garganta dos outros e a reter, a reter rigorosamente os esguichos, o gritos, a inocência - tocar-te só de luvas, sem o risco do contágio puro, sem que entres por mim adentro e me mates, imunodeficiente de abraços e ombros e pés e mãos e massa encefálica perfeitamente em condições -.

as salas flutuam escuras - "escuras ou de olhos fechados", foste sempre quase subtil nos teus reparos - e de paredes amplas, retrácteis. fiz um acordo com quem me abriu o pára-quedas para um chão almofadado no piscar de olhos, no fechar da porta, e leio o outro lado do vidro daqui, um silêncio de gato e mãos soltas em lado nenhum. lembro-me sempre: nas alturas em que corremos contrário com contrário, os passeios esticados longe e os buracos abertos, há aquela música, os olhos nos olhos, o vergão no coração.
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    A Silver Mount Zion - Built Then Burnt ...

::: para o joão :::

sorrisos






foi a minha primeira vez em évora depois daquele fim de semana. um regresso tão inesperado e amplo como antes. a magia da cidade não mudou, o céu limpo a envolver um silêncio confortável e doce. estava menos frio e todos os recantos me cheiraram a ti, o íngreme das ruas a lembrar-me os nossos passos, as copas gigantes das árvores na rua da sé, os sítios onde contigo a minha máquina disparava sobre tudo o que o meu coração via. surgiu-me interessante o facto de como os lugares se recriam, como as aventuras se formam onde pouco conhecemos e como as pessoas especiais me iluminam a parecerem bandeirinhas vermelhas num mapa emocional-vascular. tenho-te entre a pele e a alma, um amor limpo e aberto, a tua mão de calma a prometer-me que ficava tudo bem e sim, na relatividade dos dias arranjou-se tudo. na casa dentro de mim ficaste tu, um quarto com janelas para o rio e um sorriso grande grande, sem interessar se o nosso chão se forra de folhas secas ou se algum dia volto a calçar aquelas sapatilhas amarelas. obrigada por me seres.

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    Rosie Thomas - Wedding Day

regular storm sound



regular storm sound





esta é uma história de faltas e silêncios. o sopro afogueado de não haver janelas de embacio possível; eu e os outros sem saber se respiramos para fora ou para dentro, um desejo frio de vidros partidos. do tempo dos pés em todo o lado, das viagens de carro sem sair do mesmo parque de estacionamento, virámos para correrias por ruas cansadas e escorregadias.o meu taximetro começou a contar sem querer - roteiros dirigidos a lojas de discos tristes e histórias de amor sonorizadas - e abriu-se em nós um picotado. de dentro da minha boca surgiu um casulo roto, uma borboleta mate, o desconforto. ainda te sinto o cheiro dos dedos transpirados - uma torneira nas mãos quando me aproximava mais de ti -, um gosto seco de pó, os sítios todos em que parávamos para qualquer coisa de imperativos olhos nos olhos. descobriste-me a cidade, a praia e as vistas muito altas. descobriste-me a incapacidade e os desejos de subversão, os alicerces submersos. um dia, parada a correria e a mão em sangue, apontaste-me um pequeno motim sem dedos que me acusassem de nada. devolveste-me cápsulas de balas frias e enjaulaste-me - um animal pequenino a crescer vertiginosamente. eu via-te de olhos fechados e era a minha única maneira. desgostaram-me sempre as camisas de forças para dois, os quartos duplos de única cama. nunca gostei que me roubassem os óculos de encarar o sol de frente, que me fechassem as janelas e me achassem propensa a correr atrás de cenouras desesperadas: sou um bicho que se finge morto, que sussurra baixinho ao sono dos outros, que planeia fugas ao sol. tiveste os teus motivos como temos sempre todos. se quisermos - só se quisermos -, há de haver sempre uma declaração de legitimidade para todas as loucuras, para todas as vezes em que escolhemos parar de pensar para fora e soltar o monstro, incendiar tudo, partir o metro e esquecer limites para o bom tom do que pode ser dramático. houve instantes em que me compadeci do passado que te construiu, das peças que te faltavam para uma fotografia bonita de ti - tu às voltas com a necessidade de uma legenda decente, exaustiva, que te deixasse descansar. outras vezes, eu própria de bandeira branca em punho, a contar-te de como não me fiz assim de propósito mas a saber que sim, que é porque quero, porque me deixo levar, a mostrar-te cicatrizes que cuidei - uma estufa escondida de madressilvas e urtigas. na verdade sabemos os dois muito bem onde nos deixa o processo e é ridiculamente interessante fingir uma surpresa, um desajeito, uma impotência involuntária e inesperada como um acesso, um AVC emocional com uma língua branca, de papel. o tempo vai voar, assim como tu, e os meus dias andarão esfomeados à espera do encontro com outro parceiro de jogo, alguém que seja bom à batota, suficientemente bom para convictamente fingir que não joga.

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    Migala - Aquel Incendio

::: carta :::

se fosse agora que me visses, a fúria com que passaram os 20 e o calor de dentro para fora da porta, não ias julgar possível. a mão pelo corrimão abaixo até mudarmos de escadas, um essencial passado a optativo, um terceiro andar passado a segundo, o metro que passou a ser carro e lisboa mudada de ângulo, mais baixa. se fosse agora - nunca vamos saber quando será - abrias a boca muito grande, aberta, e tentavas com os dedos chegar aos caracóis que já não tenho (um dia rapei o cabelo, não sei se alguém to disse ou se ao acaso nos cruzámos na rua, cegos, e tu me viste como quem descobre uma cara nova, o final da nuca). foram dois anos e o mistério de quem engoliu a razão do mundo empurrado - a subtileza - por um não saber de friozinho e olhos ao alto ou no chão. a intolerância mudou (se) (me) sem desaparecer num corpo mais denso, menos puro, articulado no peso e, embora não tenha deixado de andar a pé, variei os sítios, os fins de tarde, as camas em que acordei. houveram coisas - vais notar quando me vires - que ficaram precisamente no mesmo estado: continuo a comer de toda a espécie e às horas mais impróprias, tenho pernas de caderneta de nódoas negras sem parecer que tropeço seja no que for, passo a maior parte do tempo só comigo - camuflada numa suposta e fervilhante vida social -, amontoo livros que depois não leio e o meu telefone continua a tocar, volta não volta, a meio da madrugada.
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    The Album Leaf - A Short Story