A volta
Se atravessasse contigo as avenidas de uma casa grande, dir-te-ia que partíamos numa expedição. Como um reconhecimento no escuro brilhante, de visita aos secretos segredos onde quase nem chegam feridas, nem pedidos, nem perguntas.
Se pé ante pé se prolongasse um desenho entre os quartos desfeitos e os novos rostos, as cidades abrir-se-iam nas sombras e os silêncios seriam altíssimos sussurros do que guardamos tão nosso pedaço-do-que-sou-feliz-ou-sinto. O ar seria branco e denso de luz. O país, todo ele feito de janelas enormes.
Se quebrássemos o ritmo num lance de escadas apontadas ao espaço, num entrelace de mãos cegas, de apertos no peito , de delírios mudos em salas vazias, emergiria intenso um compasso novo, circunferente e cheio. Mil saídas possíveis e nenhuma esquina-esconderijo. Só os olhos grandes de entrada no imenso, uma trama de arames e alavancas, pátios e claustros, um mapa de portas abertas e compartimentos selados.
Seria a noite do deslizar perfeito, dos ângulos absolutos no encaixe de histórias e mares e cenários em fita. O olá interminável mesmo na altura de um adeus.
No quarto de raio de quilómetro que afasta o meu voltar do teu misturam-se todas as direcções e os múltiplos regressos. Contas feitas, desatamos os embrulhos e mostramos as surpresas, por transferência, as que fazemos no fingir de que a nós nas farão um dia, as mesmas, sem que esperemos. Nenhum prenúncio, só o espanto.
E se chegassem os corredores grandes e cheios de ecos, o teu sorriso marcado como um carreiro de migalhas seria a lembrança do voltar para o sítio certo, sem ninguém, sem sequer tu vires. Porque há um recheio inominável guardado em todos os armários do corpo, uma cifra irreconhecível para fora, um armazém de polpa, sumo e pulsações, a um multiplicado por todos cá dentro, que cresce e avassala, maior que o mergulho no bater do músculo-coração do mundo.
